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mão versus olho

Entra a aluna, com um furinho na palma da mão, sangrando.
Enquanto eu vou limpando, ela conta que uma colega veio correndo com um lápis na mão e “sem querer querendo” enfiou a ponta bem apontada do lápis na mão dela, causando o furo.
Nesse momento a tal colega entra na sala.
- foi ela, tia! ela que me furou!
- é, e foi ela que espetou meu olho com um palito aquele dia, lembra, tia?
(sim, há uns dias essa segunda aluna teve o cantinho do olho fincado por um palito, sem grandes estragos, ainda bem)

Sabendo que as duas são grandes amigas (BFF), respondo brincando que agora elas estão quites e que chega de ficar furnado olhos e mãos.

Nisso a menina da mão furada responde:

-é, mas ela furou a mão que eu escrevo! eu nao furei o olho que ela escreve!

esse é o olho que escreve?

Então estou eu aqui, bem sentadinha na minha sala, sozinha, quentinha, esperando alguém aparecer… e começo a ouvir a maior algazarra no pátio.

Curiosa como um gato, abro a porta pra ver o que está acontecendo.

Descrição da cena:

uma turma inteira da 3ª série em fila, lado a lado, formando um paredão no meio do pátio. Entre eles, a professora com uma máquina fotográfica preparada na mão, mirando em frente. Na frente, um dos alunos abaixado no chão, com uma maquete imitando um vulcão, feito de argila sobre uma tábua de madeira. Do lado uma garrafa vazia de Coca zero. Na mão dele, um pacote de mentos sendo rasgado e as balas caindo do chão.

Expectativa geral. Quem passa pelo pátio, para. Mais alunos de várias idades param ao redor do vulcão. Tensão. O aluno coloca todos os mentos dentro do buraco já preenchido com o refri. Mais tensão. Silêncio total.

E…..

Nada acontece.

O tio do pátio vai lá com um pauzinho e cutuca o fundo do vulcão. Mexe a mistura como quem mexe um copo de leite com nescau.

E…..

Nada ainda.

A professora desliga a máquina fotográfica, olha pra mim e diz “tadinho…” quase em prantos.

A turma toda se aglomera em volta do vulcão extinto. Absolutamente nada aconteceu.

O jovem cientista, fracassado, junta seu vulcão do chão e volta pra sala de aula.

A professora segue o cortejo da turma atrás do guri e vai dizendo “uma exeriência é assim mesmo, gente: pode dar certo umas vezes, e outras não. Mas o importante é que ele tentou.”

tadinho…

bullying

Frase final na discussão entre dois alunos no pátio da escola:

“Sabe o que eu queria ver? uma briga tua com o Justin Bieber. Aposto que o Justin Bieber ganharia.”

e-pai dos burros

conversa de um grupo de crianças (7-8 anos) no pátio, na frente da porta da enfermaria:

-olha só esse bicho, que estranho!

-eca, que nojo!

-ele tá se mexendo!

-olha ali outro! olha olha!

-será que é venenoso?

-não toca nele! não toca! cuidado! aaaiii!!

-mas que bicho que é? nunca vi um assim…

-procura no Google.

Fez-se o silêncio. Foram todos pra biblioteca pesquisar o tal bicho no google. No meu tempo eu também iria pra biblioteca, mas pesquisar na Delta Universal.

diálogo com uma aluna de 10 anos. Ou “quase 11″ como ela gosta de enfatizar.

- tia, tu tem namorado?

- tenho sim. e tu?

- ah… eu não, hihihi… mas eu gosto de um colega meu. O nome dele é Pedro, ele é o segundo mais bonito da turma. Eu gosto dele e ele gosta de mim. Quer dizer, ele gosta de mim e da minha amiga Carol. Daí ele tá esperando pra ver de qual ele gosta mais. E antes eu gostava do Felipe, só que ele não gostava de mim e agora eu tô deixando de gostar dele pra gostar mais do Pedro. Entendeu?

- aham, entendi.

monólogo

Alguém já reparou na falta de objetividade das crianças?

Sempre que um pequeno entra aqui na enfermaria e eu pergunto o que aconteceu, a resposta dele, que podia ser simplesmente “caí e ralei o joelho” se torna num monólogo gigantesco que conta detalhes desde o dia de ontem até o momento da queda no recreio, causando o esfolão. Obviamente o momento da queda é representado dramaticamente como um replay.

- oi, o que aconteceu?

- é que assim ó tia: ontem eu fui dormir na casa do meu colega João Pedro daí a mãe dele fez massa na janta e depois que a gente acordou hoje a gente viu TV e depois do almoço que foi carne com feijão e arroz ela me trouxe aqui pro colégio daí depois da atividade de desenho e do lanche a turma veio aqui pro pátio pro recreio daí eu tava correndo brincando de pega-pega-paralítico com o João e com o Pedro e com o Mateus daí a Ana queria brincar também daí a gente deixou ela brincar e a Carol também daí me pegaram e eu fiquei paralítico daí o Mateus foi passar assim por baixo das minhas pernas (mostrando o movimento) pra me salvar daí eu me virei só que não sei o que aconteceu que eu não consegui ficar de pé daí eu caí no chão assim (e jogando no chão pra mostrar) e bati meu joelho. (respira). E tá doendo muito.

Só de ouvir fico sem ar.

Ainda bem que um dia eles aprendem a usar pontos e vírgulas. Inclusive na fala.

fato:

uma aluna está com o corpo quente.

consequência:

coloco um termômetro debaixo do braço dela para medir a temperatura.

fato:

a aluna resolve abanar para uma coleguinha na janela e deixa o termômetro cair no chão.

consequência:

um canto do chão da enfermaria fica cheio de caquinhos de vidro e de bolinhas de mercúrio. (NOTA: brincar com bolinhas de mercúrio é tri legal perigoso!)

fato:

eu chamo alguém da limpeza para limpar os restos mortais do termômetro no chão.

a pessoa da limpeza me aparece com uma vassoura de piaçava toda descabelada e uma pá de lixo gigante.

varre daqui pra lá, de lá pra cá, coloca 3 grãozinhos de poeira na super pá e vai embora com cara de serviço feito.

consequência final:

agora eu tenho zilhões de mini caquitinhos de vidro e micro bolinhas de mercúrio espalhados por toda a enfermaria.

valeu aí, tia da limpeza!

¬¬

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